sexta-feira, 29 de julho de 2011

Texto de historiador causa polêmica e debates em universidades de Direito


Justiça, corrupção e impunidade


"Não há quem não fique indignado com as constantes denúncias de corrupção em todas as esferas do Executivo e do Legislativo. A cada mês ficamos horrorizados com o descaso e o desperdício de milhões de reais. Como não é possível ao cidadão acompanhar o desenrolar de um processo (e são tantos!), logo tudo cai no esquecimento e não ficamos sabendo da decisão final (isto quando o processo não é anulado e retorna à estaca zero). O denunciado sempre consegue encontrar alguma brecha legal e acaba sendo inocentado. E isto se repete a cada ano. Não há indignação que resista a tanta impunidade.

E aí é que mora o problema central do Brasil. Não é possível dizer que as instituições democrática estão consolidadas com tantos casos de corrupção e o péssimo funcionamento dos três poderes. Agir como Poliana é jogar água no moinho daqueles que desprezam a democracia. E sabemos que temos uma tradição autoritária.

Apesar dos pesares, o Executivo e o Legislativo são transparentes, recebem uma cobertura jornalística que devassa os escândalos. Os acusados se transformam, em um período limitado, em inimigos públicos. Viram motivo de chacotas. Nada de efetivo acontece, é verdade. Porém, o momento de catarse coletiva ocorre. E o Judiciário? Age para cumprir a sua função precípua? Recebe cobertura paulatina da imprensa? Ou insinua usar o seu poder para que não sejam lançadas luzes — com o perdão da redundância — sobre o seu poder?

É no Judiciário que está o cerne da questão. Caso cumprisse o disposto na Constituição e na legislação ordinária, certamente não assistiríamos a este triste espetáculo da impunidade. Pela sua omissão virou o poder da injustiça. É, dos três poderes, o mais importante. E tem a tarefa mais difícil, a de resolver todo santo dia a aplicação da justiça.

O Supremo Tribunal Federal, por ser a instância máxima da Justiça, deveria dar o exemplo. Mas não é o que ocorre. A estranha relação entre os escritórios de advocacia e os ministros do STF deixa no ar uma certa suspeição. E no caso da Corte Suprema não pode existir qualquer tipo de questionamento ético. Os ministros devem pautar sua vida profissional pelo absoluto distanciamento com outros interesses que não sejam o do exercício do cargo. Não é admissível que um ministro (por que não ser denominado juiz?) tenha empreendimentos educacionais, ou mantenha um escritório de advocacia, ou, ainda, tenha parentes (esposa, filhos, cunhados, genros, noras) que participem diretamente ou indiretamente de ações junto àquela Corte.

O padrão de excelência jurídica foi decaindo ao longo dos anos. É muito difícil encontrar no STF algum Pedro Lessa, Adauto Lúcio Cardoso ou Hermes Lima. Os ministros que lá estão são pálidos, juridicamente falando, com uma ou outra exceção. Cometem erros históricos primários. Seria melhor que as sessões televisivas daquela Corte fossem proibidas para o bem dos próprios ministros.

Mas o problema do Judiciário é muito maior do que o STF. Nos estados, a situação é mais calamitosa. Famílias poderosas exercem influência nefasta. O filhotismo crassa sem nenhum pudor. E o que não se vê é a aplicação da justiça. Não pode ser usada como justificativa a falta de recursos. Desde a Constituição de 1988, o Judiciário tem um orçamento fabuloso. O problema é que o dinheiro é mal gasto.

O Judiciário preocupa-se com o cerimonial, o rito burocrático e todas as formalidades, mas esquece do principal: aplicar a justiça. O poder é lento e caro. E pior: é incompreensível ao cidadão comum. Ninguém entende como um acusado de desvio de milhões de reais continua solto, o processo se arrasta por anos e anos e, quando é condenado, ele não cumpre a pena. Ninguém entende por que existem tantas formas de recorrer de uma sentença condenatória. Ninguém entende o conceito do que é considerado prova pela Justiça brasileira.

É inadmissível juízes e promotores realizarem congressos patrocinados por empresas que demandam o Judiciário. É inadmissível um ministro do STF comparecer a uma festa de casamento no exterior com despesas pagas (no todo ou parte, isto pouco naquela Corte. E ainda gazeteou sessões importantes (foram descontadas as faltas?). Se o Brasil fosse um país com instituições em pleno funcionamento, certamente haveria algum tipo de sanção. Sem idealizar a Suprema Corte americana, mas caberia perguntar: como seria recebida por lá uma notícia como essa?

Indo para o outro lado do balcão, cabe indagar o papel dos escritórios de advocacia especializados na defesa de corruptos. E são tantos. É evidente o direito sagrado de defesa. Não é isto que está sendo questionado. Mas causa profunda estranheza que um número restrito de advogados sempre esteja do lado errado, do lado dos corruptos. E cobram honorários fabulosos. Realizam seu trabalho somente para a garantia legal do direito de defesa ? Será ? É possível assinar um manifesto pela ética na política e logo em seguida comparecer ao tribunal para defender um político sabidamente corrupto? Este advogado não tem nenhuma crise de consciência?

Há uma crise estrutural no Judiciário. Reformá-lo urgentemente é indispensável para o futuro da democracia. De nada adianta buscar explicações pífias de algum intérprete do Brasil, uma frase que funcione como um bálsamo. Ninguém aguenta mais as velhas (e ineficazes) explicações de que a culpa é da tradição ibérica, da cordialidade brasileira ou do passado escravista. Não temos nenhuma maldição do passado, algo insuperável. Não. O problema é o presente."

MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos (SP).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Apure sua visão sobre as “Favelas” - 2ª Parte


A partir daí pouco a pouco a atenção se voltou para o novo espaço urbano social, criado em conseqüência, nos morros cariocas, a favela, território da pobreza e das “classes perigosas”.


Por influencia do celebre livro, Os Sertões, de Euclides da Cunha, um verdadeiro fenômeno cultural da época, a elite administrativa priorizou entender o morro da providencia. O livro entre outras coisas descreve e relata a ocupação do morro da favela pelos militares na cidadela de Canudos. Alguns militares ao voltar desta guerra, na esperança de receber o soldo se instalaram no morro da providencia que passou a ser denominado de morro da favela.


“Na visão dos primeiros observadores da favela do Rio de Janeiro, morar nesses locais também se apresentava como uma escolha, assim como ir para Canudos dependia da vontade individual de cada um. Os habitantes da favela são ligados a sua comunidade e não desejam deixá-la”. (Costallat, 1995)


Considerando alguns aspectos do processo, para entender a construção deste mito, podemos constatar que a ultima citação comenta sobre o começo da criação da dimensão do favelado. Indivíduos que como os ex-soldados descontentes, conspiram contra os interesses do estado e contra a ordem social.


Outros aspectos que não podem deixar de ser considerados e que surgiram no desenrolar deste processo são, as preocupações políticas de uma então jovem República, preocupada em se consolidar. A pretensão desta jovem República em construir uma sociedade evoluída e saudável, e principalmente a vontade de livrar-se das representações do que então era visto como ultrapassado, como de outra “época”.


“A favela pertence ao mundo antigo, bárbaro, do qual é preciso distanciar-se para alcançar a civilização”. Pensamento da época. (Licia Prado Valladares, 2008)


Então no inicio do século do século XX, a favela já passa a ser avaliada como grande problema, abrindo com isso grande debate na sociedade. Alguns atores sociais, com maior ênfase, médicos e urbanistas, tiveram na época enorme influencia nesta discussão, e contribuíram novamente, para uma análise do tema, simplesmente técnica e física, ignorando as verdadeiras causas sociais. Os “favelados” eram ignorados diante destes observadores sociais. Quem eram os moradores? O que eles faziam? Da onde eram? Aonde trabalhavam? Quantos anos tinham? E muitas outras perguntas não eram se quer, consideradas. O tema foi destituído de propriedade humana, o mito já estava criado. E outra campanha surgiu na oficialidade da cidade, agora contra as favelas ou usando um termo da época contra a “lepra da esthética”. A diferença entre a campanha contra os cortiços e essa contra as favelas era que essa agora vinha com a marca de um estado com pretensões modernas, o cinismo social, a capacidade de produzir engodos, finalmente nossa elite rural depois de mais ou menos 400 anos teria sido apresentada a Nicolau Maquiavel. Despejar milhares de famílias e construir apenas centenas de casas, forçando desta vez a grande maioria de desabrigados sem acesso a elas, a ocupar áreas na periferia.


Assim essa política antifavela se desenvolveu até o final da década de 20, quando o Brasil experimentou o que seria para muitos o seu principal rompimento histórico, a Revolução de 1930, que inicia a Era Vargas, decretando o fim da republica velha e inaugurando uma ditadura de viés nacionalista e populista, que encarava as classes trabalhadoras com interesse social.

Em 1931 Vargas nomeia o medico Pedro Ernesto como prefeito da cidade do Rio de Janeiro, sua ação populista se voltou para uma política de clientelismo dentro das comunidades, com indicações e recomendações para serviços sociais que dificilmente o pobre acessaria normalmente, junto com a construção principalmente de escolas e hospitais. A política de destruição fazia parte do passado, o reconhecimento da favela como espaço legitimo urbano, trouxe o ímpeto de melhorar e administrar as favelas e seus habitantes. Importante aqui lembrar que até a Era Vargas, a ajuda social aos pobres tinha caráter exclusivamente privado e religioso e era organizado em cima de praticas e instituições que remontavam o Brasil colonial.

Então com o objetivo de inserir dentro do controle estatal o contexto das favelas, com uma política de proteção, mais sobre tudo de controle dos pobres, veio à preocupação de conhecer cientificamente e estatisticamente esse espaço urbano e seus atores. O código de obras de 1937 passou a reconhecer oficialmente a favela como tipo de espaço urbano presente no território do distrito federal. E no inicio da década de 40 um censo completo foi realizado e os primeiros trabalhos de cunho social apareceram. Irrelevante julgar o caráter elitista desses trabalhos, o importante é que eles foram e são referencia até hoje.


Com isso se produziu outro tipo de conhecimento sobre as favelas, mas vale registrar que mesmo com avanços, os preconceitos se mantinham no discurso da população não pobre. E quando Vargas foi deposto por Washington Luís em 1945, e até o retorno dele em 1951 pelas eleições, houve uma forte retomada no discurso conservador elitista de extinção das favelas.


Neste período em que Vargas estava afastado um personagem importantíssimo se insurgiu contra esse forte movimento, Dom Helder Câmara. A igreja Católica foi a grande protagonista na defesa das classes pobres faveladas, criando a Fundação Leão XIII e o movimento cruzada de São Sebastião.


Com a volta de Vargas em 1951, o populismo estava de volta ainda mais forte que no seu primeiro período, com isso as favelas se expandiram descontroladamente.

No período ditatorial militar, houve tentativas de remoção das favelas, e com a volta da democracia nos anos 80 se iniciou a política de urbanização pelo BNH e pelas agencias de serviço público. Já nos anos de 1990 o movimento favela bairro consolida o movimento social para as favelas.


A reflexão em torno desse tema é que essa tendência a dualidade de conflitos, que o ser humano trás como marca psicológica. Atravessando de forma evolutiva dentro deste tema, aonde primeiro, o pretenso mundo urbano brasileiro conflitava com o mundo rural, em seguida a mentalidade civilizatória das elites influenciada pela Europa, conflitava com o atrasado, e por fim a simples resistência sobre o outro estranho a sua realidade, produziu erros atrás de erros ao lidar com os excluídos brasileiros e suas adaptações à sobrevivência.


O Estado nunca se preocupou como a massa de escravos libertos sobreviveria dentro da nação, pelo contrario se preocupou somente com a manutenção e o bom funcionamento dos grandes latifúndios. O estado e seus representantes da elite nunca se preocuparam, com a relação povo trabalho, e povo moradia. Ignoravam a modernidade e suas novas vertentes de representações e manutenção de poder, nunca se preocupou em defender os poucos que apostavam na indústria, pelo contrario, alienada, a classe consumidora sempre preferiu produtos importados. A lógica política mudava, a lógica econômica mudava, e importantes questionamentos sociais a respeito do individuo, do trabalhador já se faziam presente durante todo este processo no mundo, e a elite sempre ignorou.


Sempre fez vistas grossas, portanto as conseqüências estão bem a mostras, e não adianta simplificá-las com um discurso alienado, daqueles que não tem sua história na origem destas causas.


A pobreza é uma realidade e gera o absurdo como morar em áreas impensáveis, como comer coisas intragáveis. Mas a pobreza é HUMANA, não é uma coisa ou uma paisagem, e quem as produz somos nós, a favela não é outro mundo, é parte do nosso mundo que devemos melhorar, até que ela não precise mais existir.

Apure sua visão sobre as “Favelas” - 1ª Parte


Temos aqui um tema que esclarece como poucos, a questão da mentalidade dentro da sociedade brasileira.


Toda minha experiência de vida foi testemunha que na sua grande maioria, a mente solta e inserida nas camadas acima dos pobres, no conceito de classe pré-concebido. Reflete ou reverbera pré-conceitos e discursos segmentários, montados em épocas das quais elas não tem a menor idéia.


Como minha sociabilidade pode ser entendida na classe média, meus testemunhos se justificam.
Quando expresso “mente solta”, digo do individuo que é capaz de julgar a sociedade sem ela estudar. Quantas vezes o tema favela se faz presente dentro dos noticiários policiais, do seu tele jornal diário, dentro de conversas sobre violência, e como explicação de condição social.
Considerando quem mora ou freqüenta o Rio de Janeiro, “cidade maravilhosa”, quem ao menos não escutou ao passar diante de uma enorme favela? “Como seria perfeito se “isso” não estivesse aí”. Ou coisa parecida. “Como seria lindo se o Rio não tivesse favelas! E varias outras explanações neste sentido.


A favela é sem duvida, até os dias de hoje, um verdadeiro mito para toda a sociedade que se externa a ela.


É claramente perceptível à atenção dos mais leigos, como esse mito é encarado na contemporaneidade. A sociedade que se exclui, pinta a favela como uma habitação maior de uma praga maldita social, uma habitação matricial, geradora como uma rainha, de insetos sociais, aonde por sorte, algum pode ser salvo para o plano alienado da classe média. Sendo que a grande maioria é encarada como um lastro e uma ameaça para ao bom funcionamento do Estado.
E este por sua vez, tem contato com o “mito” através de obras eleitoreiras, assistencialismo barato e, sobretudo com a mão pesada do militarismo policial. Isolando e contendo os indivíduos que ousam explorar um viés alternativo de compreensão de mundo, e de cultura.


Percebe-se que enquanto uma parte da sociedade consegue ter uma rotina razoável de vida, outra fica espremida entre um plano violento de segurança estadual de tolerância zero, dirigido para aqueles que não tiveram o menor contato com o próprio estado. Tendo que achar normal uma verdadeira guerra de guerrilha com armamentos pesados nas ruas, nos espaços públicos do seu bairro e entre suas casas. Coisa impensável nos bairros de classe média a rica, mas, justificável nas ditas favelas.


E o que muda no entendimento, quando atravessamos essa circunstância com a ciência História? Sempre muda muita coisa. Continuamente a História nos revela e oferece a chance de se ver um mundo escondido pelo poder e pelas conveniências.


Então para começar a entender as favelas e toda a criação deste mito devemos voltar ao século XIX na cidade do Rio de Janeiro.


Quando enormes casarios de latifundiários em crise passaram a ser explorados como cortiços para a classe trabalhadora pobre que necessitava estar próximo da alternativa rara de trabalho, ou seja, no grande centro. Surgindo com isso uma adequação social impar e bem brasileira, aonde pobres e ricos dividiam os mesmos bairros na cidade.


Os cortiços eram definidos pelo regulamento municipal como: “construcção prohibida pela prefeitura. É uma habitação collectiva, geralmente constituída por pequenos quartos de madeira ou construcção ligeira, algumas vezes installados nos fundos de prédios e outras em pequenos pateo. Também se considera cortiço um prédio de construcção antiga onde clandestinamente são construídas divisões de madeira (construcção prohibida pela prefeitura), formando quartos ou cubículos, sem mobília, que muitas vezes se extendem aos sótãos, forros, porões, cozinhas, despencas banheiros, etc e habitados geralmente por indivíduos de classe pobre e com o nome de casa de alugar cômodos, sem direção...” Cf. Backheuser (1906:105-106)


Importante lembrar que neste período, uma considerável massa de trabalhadores, principalmente negros e imigrantes, disputava as poucas vagas de trabalho formal e informal que a cidade provia. Período ainda de um país latifundiário com muita oferta de mão de obra e uma fraca política industrial.


A pobreza urbana se acumulava e trazia preocupações para as elites de todo o mundo, isso, quando as ciências sociais ainda engatinhavam no meio acadêmico sendo apenas o germe do que viria ser, portanto ficando fora do processo de pensar a pobreza.


Profissionais da imprensa, literatos, engenheiros, médicos, advogados, entre outros, foram os primeiros a se prestar, a tentar entender a cena urbana e seus personagens pobres. No Rio de Janeiro a atenção se voltou para o foco das classes pobres, o cortiço. Como cita Licia Prado Valladares “Definido como um verdadeiro “inferno social”, o cortiço carioca era visto como ameaça a ordem social e moral. Percebido como espaço propagador da doença e do vício, era denunciado e condenado através do discurso médico e higienista, levando a adoção de medidas administrativas pelos governos da cidade”.


Após o entendimento de uma circunstancia capital dentro da sociedade, ser apreciada, discutida e interpretada pela perspectiva de profissionais, quando não apenas técnicos, sempre elitizados, a imagem totalmente negativa dos meios populares ganhava a oficialidade, estava declarada a “guerra” contra os cortiços. Através de leis e ações administrativas, os cortiços foram sendo destruídos e erradicados. Novamente o discurso civilizatório euro-centrista foi bem conveniente. O Estado Brasileiro que trazia ainda a hereditariedade de uma colônia de exploração, sustentada por uma elite na sua grande maioria ruralista, existia principalmente para o sustentáculo da mola mestra da maquina econômica. Pouco tinha noção das conseqüências, que ações radicais teriam, não encarando a modernidade, que já se fazia presente, pelo menos com suas mazelas.


Excluir habitações populares para uma grande reforma urbana “civilizatória” e não pensar em uma política de habitações para a massa despejada, não pensar o quanto a pobreza poderia pesar para um todo, mostrava a forma que os lideres encaminhavam o país diante de uma nova realidade de mundo, no final do século XIX.


Vários estudos hoje mostram uma ligação direta entre as demolições e incêndios dos cortiços do centro com o inicio das ocupações ilegais nos morros cariocas. A massa despejada dos cortiços ocupou os morros nas proximidades do centro da cidade, já que o subúrbio ainda rural, desprovido de transporte e longe dos empregos era inviável à sobrevivência.


Continua...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago 1922-2010





Pensar, pensar

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008



Obras publicadas


Poesias


- Os poemas possíveis, 1966
- Provavelmente alegria, 1970
- O ano de 1993, 1975
Crônicas


- Deste mundo e do outro, 1971
- A bagagem do viajante, 1973
- As opiniões que o DL teve, 1974
- Os apontamentos, 1976

Viagens


- Viagem a Portugal, 1981

Teatro

- A noite, 1979
- Que farei com este livro?, 1980
- A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
- In Nomine Dei, 1993
- Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005
Contos


- Objecto quase, 1978
- Poética dos cinco sentidos
- O ouvido, 1979
- O conto da ilha desconhecida, 1997

Romance

- Terra do pecado, 1947
- Manual de pintura e caligrafia, 1977
- Levantado do chão, 1980
- Memorial do convento, 1982
- O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
- A jangada de pedra, 1986
- História do cerco de Lisboa, 1989
- O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
- Ensaio sobre a cegueira, 1995
- A bagagem do viajante, 1996
- Cadernos de Lanzarote, 1997
- Todos os nomes, 1997
- A caverna, 2001
- O homem duplicado, 2002
- Ensaio sobre a lucidez, 2004
- As intermitências da morte, 2005
- As pequenas memórias, 2006
- A Viagem do Elefante, 2008
- O Caderno, 2009- Caim, 2009

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A Criação de uma Sociedade Capitalista no Brasil - 2ª Parte

Importante aqui nos determos resumidamente para explicar a “solução” de substituição, que a elite e o estado encontraram em relação ao trabalho servil. Relevante também destacar que esta tentativa de “solução” se deu entre meados e final do século XIX, no tempo em que existia forte influencia da “pseudociência”, eugenia. Pseudociência esta, que defendia a superioridade da “raça” branca em relação a negra, seguindo padrões do darwinismo e de conceitos “civilizatórios”, assim pregando o aperfeiçoamento genético, “higienizando” de forma a embranquecer um estado para torná-lo superior.

E foi sem sombra de duvida este pré-conceito que a elite brasileira aplicou para resolver de forma gradual seu maior desafio.

Então esta solução se deu por etapas. Primeiro foi incentivado décadas antes da abolição a criação de colônias de imigrantes europeus de forma espontânea, o que não deu certo devido a vários fatores. Entre os principais, o clima, o imaginário europeu, e a concorrência neste sentido do EUA, que seduzia muito mais o imigrante.

Vendo que não surtia efeito o governo resolveu subsidiar a criação de colônias de imigrantes para gerar mão de obra barata principalmente para as fazendas de café na região de São Paulo. Conseguindo desta vez, atrair imigrantes, mas fracassando ao longo do tempo por falta de uma política especifica para o assunto, questões culturais, de adaptação, e a mais importante, a mentalidade escravocrata dos fazendeiros produtores impediram o resultado esperado.

Sobre tudo é que mesmo fracassando na substituição em termos ideais para o estado, fatores externos de mercado e uma maior oferta de mão de obra dentro do setor, contando com os deslocamentos internos de escravos um pouco antes da abolição e a imigração para as principais áreas produtoras, o setor latifundiário pode manter-se como desejava, forte e em expansão.
À medida que a expansão do setor agrícola exportador se fazia continuo. É importante lembrar que paralelo a todo este processo, e por causa de todo este processo, a sociedade se tornava mais complexa, a medida que novos agentes sociais e a própria expansão urbana era inevitável frente a crescente do mercado externo.

Esta complexidade passava também pelo incremento da infra-estrutura e o fortalecimento do mercado interno, grande propulsor e incentivador de agentes sociais diferentes, e economicamente indiretos. E no final do século XIX das primeiras indústrias do tipo de substituição de importação.

Mas uma vez é de grande valor lembrar que o objetivo é entender a criação de uma sociedade capitalista no Brasil. E como escrevi antes, é obsoleto considerar isso pronto somente porque alguns agentes e fatores já se fazem presente no processo, é necessário algo mais.

Então fechando a subestrutura referente a autonomia de poder do grande latifundiário, e chegando ao ponto de uma nova realidade social, cito mais uma vez Celso Furtado, em seu livro, Formação Econômica do Brasil:

Os interesses diretamente ligados à depreciação externa da moeda – grupos exportadores – terão a partir dessa época que enfrentar a resistência organizada de outros grupos. Entre eles se destacam a classe média urbana – empregados do governo, civis e militares, e do comércio – os assalariados urbanos e rurais, os produtores agrícolas ligados ao mercado interno, as empresas estrangeiras que exploram serviços públicos, das quais nem todas tem garantia de juros. Os nascentes grupos industriais, mas interessados em aumentar a capacidade produtiva (portanto nos preços dos equipamentos importados), que em proteção adicional, também se sentem prejudicados com a depreciação cambial. (Furtado,1920, p.252)

Principal mecanismo de defesa de mercado empregado pela política econômica do estado em prol do grande latifundiário.

Supracitado, o Brasil entrou em um período de tensões que se prolongou durante as primeiras décadas do século XX. Até culminar no Estado Novo.

Assim sendo no período das primeiras tensões a mentalidade do grande coletivo, tencionava por interesses convenientes e não por uma adequação de realidade capitalista.

Esse choque de realidade somente se deu com a Era Vargas, aonde de fato a oligarquia rural perdeu seu poder e inúmeras alterações nos grupos sociais e institucionais aconteceram.

A mentalidade elitista rural estava finalmente enterrada, o longo processo que imobilizou o Brasil durante a maior parte do seu tempo com um conceito escravista tinha finalmente terminado.

O Brasil deixava de ser rural e tentava entrar no jogo mundial, de forma tardia e pela porta dos fundos, mas de fato inseria a República Brasileira na fase do Capitalismo Industrial, fase essa defasada em relação ao EUA e a Europa, que já se encontravam em processo de germinação do Capitalismo Informacional.



Conclusão

O Brasil não conseguiria desenvolver um sistema econômico de viés capitalista ancorado em uma mentalidade escravista para exportação. Problemas como, pouco dinheiro circulando, pouco trabalho remunerado, a falta de um mercado interno considerável e uma política cambial voltada para os interesses de uma elite exportadora e não para um mercado são as principais conseqüências da opção escravista que culminaram no retardamento do Brasil no contexto capitalista.

O que demonstra que a constante defesa de uma opção econômica para uma minoria elitista se transformou em condicionamento estrutural de uma mentalidade coletiva. E uma armadilha para a própria elite cafeeira presa em seus conceitos ultrapassados.